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A Bíblia chama os crentes a orarem, e não apenas a reclamarem.

Publicada em: 29/05/2026 12:00 -

A Bíblia não fala de eleição como conhecemos hoje, com campanhas, partidos e votação, mas fala muito sobre governo, autoridade, liderança e sobre a postura do povo de Deus em meio a tudo isso. Quando estamos em pré-período eleitoral, esses princípios se tornam muito atuais, porque o modo como escolhemos governantes e como nos comportamos nesse tempo revela quais são, de fato, os valores do nosso coração.

 

Logo em Provérbios encontramos uma verdade que atravessa a história: “Quando os justos governam, alegra-se o povo; quando o ímpio domina, o povo geme” (Provérbios 29.2). Esse versículo não descreve apenas uma opinião; ele expressa uma realidade espiritual e prática. A Bíblia mostra que governantes justos não são apenas pessoas religiosas, mas líderes que tratam o povo com retidão, honestidade, respeito às leis, ao próximo e à verdade. São aqueles que buscam promover o bem comum, e não apenas seus próprios interesses.

 

Em contraste, o “ímpio” que domina é o líder sem temor de Deus, sem compromisso com a justiça, que tolera ou promove corrupção, injustiça, opressão e mentira. O efeito do governo de um e de outro é sentido diretamente pelo povo: quando os justos governam, há mais ordem, dignidade e paz; quando os ímpios governam, o povo “geme” sob o peso da injustiça e da opressão. Em um tempo de escolha, isso significa que o voto não é um ato neutro, mas uma cooperação com um tipo de governo que trará consequências concretas para toda a sociedade, especialmente para os mais frágeis.

 

No Novo Testamento, Paulo mostra que Deus se importa com as autoridades a ponto de mandar a igreja orar por elas: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade” (1 Timóteo 2.1–2). É interessante notar que Paulo escreve isso numa época em que os governantes eram, em grande parte, pagãos e até hostis à fé cristã. Ainda assim, ele manda que se ore por eles.

 

Por trás desse mandamento está a compreensão de que Deus, em sua soberania, pode usar governos, mesmo imperfeitos, para manter um mínimo de ordem, paz e espaço para que o povo viva com “piedade e dignidade”. A oração da igreja, portanto, não é um detalhe religioso, mas uma participação espiritual real no rumo da nação. O cristão, em vez de apenas observar passivamente o cenário político, é chamado a interceder para que Deus conduza a história, levante e dirija autoridades de modo a favorecer a prática do bem.

 

Mas se Deus manda orar pelos governantes, Ele também alerta sobre um perigo muito sério: depositar neles uma confiança que pertence somente a Ele. O Salmo 146.3 diz: “Não confiem em príncipes, nem em meros mortais, incapazes de salvar.” Aqui, “príncipes” representam governantes e pessoas de grande poder humano. O salmista não está proibindo o respeito às autoridades ou o apoio legítimo a um governante; ele condena transformar esse apoio em confiança absoluta, como se de um homem pudesse vir a salvação definitiva.

 

O texto destaca duas características marcantes desses “príncipes”: são “meros mortais” e “incapazes de salvar”. Eles são limitados, falhos, passageiros. Podem até promover algum bem temporário, mas não podem mudar o coração humano, nem resolver o problema profundo do pecado, nem garantir a verdadeira esperança. A salvação, no sentido pleno — espiritual, eterno e definitivo — vem somente de Deus, por meio de Cristo.

 

Jeremias 17.5 aprofunda esse alerta: “Assim diz o Senhor: ‘Maldito é o homem que confia no homem, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor’.” Esse texto nasce num contexto em que o povo de Judá tentava garantir segurança por meio de alianças políticas com outras nações, em vez de confiar no Senhor. O problema não é se relacionar com pessoas ou usar estratégias humanas; o problema é deslocar a confiança do coração, tirando-a de Deus e colocando-a no homem. O resultado, diz o profeta, é maldição: frustração, queda, vergonha.

 

Aplicado ao tempo de eleição, isso significa que o cristão pode e deve interessar-se por política, apoiar candidatos, discutir propostas, mas não deve idolatrar pessoas, nem tratar projetos políticos como se fossem o evangelho. Quando um crente relativiza princípios claros de Deus apenas para defender “seu lado” ou “seu líder”, está deixando que o coração se afaste do Senhor. O discípulo de Jesus jamais pode trocar a fidelidade a Cristo pela fidelidade a um político.

 

Se por um lado não podemos idolatrar líderes, por outro lado a Bíblia nos chama a agir com discernimento e prudência. Provérbios 14.15 diz: “O inexperiente acredita em qualquer coisa, mas o homem prudente vê bem onde pisa.” O “inexperiente” ou “simples” é a pessoa ingênua, que aceita sem reflexão tudo o que escuta, que se deixa levar pelo primeiro discurso convincente, pela emoção do momento. Já o “prudente” é aquele que examina, pensa, analisa e só depois decide.

 

A fé bíblica não é uma fé cega, mas uma fé que busca sabedoria. Em todas as áreas da vida, inclusive na política, o cristão é chamado a “ver bem onde pisa”, considerando as consequências de suas escolhas, e não se deixando dominar apenas por simpatias, medos ou paixões. Paulo reforça esse princípio ao escrever: “Examinem tudo. Fiquem com o que é bom” (1 Tessalonicenses 5.21). A maturidade cristã não está em rejeitar tudo nem em aceitar tudo, mas em examinar e filtrar. Nem tudo o que vem de um grupo é totalmente ruim, nem tudo o que vem de outro é totalmente bom. O crente não é “torcida organizada”; ele é alguém guiado pela Palavra e pelo Espírito.

 

Nesse processo de exame, a Bíblia dá grande importância ao caráter dos líderes. Em Êxodo 18.21, quando Moisés está sobrecarregado com as demandas do povo, seu sogro Jetro o orienta: “Mas escolha dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganhos desonestos, e os coloque como chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez.” São definidos quatro critérios muito claros: capacidade, temor de Deus, confiabilidade e rejeição à corrupção.

 

Capacidade implica que liderança exige competência real, habilidade para administrar, julgar e tomar decisões. Temer a Deus significa que o líder tem consciência de que está debaixo de um Deus maior, a quem um dia prestará contas; isso refreia abusos e injustiças. Ser digno de confiança aponta para integridade: alguém cuja palavra tem peso, que não vive em contradição aberta com aquilo que diz. Ser inimigo de “ganhos desonestos” fala não apenas de não participar da corrupção, mas de combatê-la ativamente, de não se vender, de não negociar princípios por vantagens.

 

No Novo Testamento, as listas de requisitos para líderes da igreja — como em 1 Timóteo 3.1–7 e Tito 1.5–9 — reforçam o peso que Deus dá ao caráter. Ali se fala de homem “irrepreensível”, sóbrio, prudente, respeitável, não violento, não apegado ao dinheiro, que governa bem sua própria casa e que tem bom testemunho até dos de fora. Embora esses textos tratem de liderança espiritual, eles deixam claro que, diante de Deus, competência nunca é separada de caráter. Isso confronta a ideia de que “vida pessoal não importa”; biblicamente, importa sim.

 

Enquanto escolhe líderes, o cristão também precisa olhar para si mesmo, especialmente em tempos de polarização, quando as emoções costumam ficar à flor da pele. Jesus, na noite em que foi traído, disse aos discípulos: “Um novo mandamento lhes dou: amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Nisto todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13.34–35). O distintivo do verdadeiro discípulo de Cristo não é o partido, nem a ideologia, nem a posição política; é o amor prático, concreto, sacrificial, especialmente entre irmãos na fé.

 

É um grande escândalo quando a política, que é passageira, se torna motivo para romper comunhão que Deus estabeleceu em Cristo. Divergências sobre candidatos e projetos são normais, mas o que não pode ser negociado é o amor. O cristão pode discordar com firmeza, mas nunca tem licença para odiar, humilhar, desrespeitar ou “cancelar” o outro, muito menos um irmão em Cristo.

 

Tiago reforça a postura que deve marcar o crente: “Meus amados irmãos, tenham isto em mente: sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se” (Tiago 1.19). Em geral, fazemos o contrário: ouvimos pouco, falamos muito e nos irritamos rápido. A sabedoria do alto, porém, nos chama a escutar com atenção, pensar antes de responder e frear a ira. Em épocas de pré-eleição, esse conselho é precioso para conversas em casa, no trabalho, na igreja e em qualquer outro ambiente.

 

Paulo, em Romanos 12.18, acrescenta: “No que depender de vocês, façam todo o possível para viver em paz com todos.” Ele reconhece que nem sempre a paz será possível, pois ela também depende da resposta do outro. Mas ele deixa claro que o cristão não deve ser a causa consciente de conflitos desnecessários. Defender convicções não é incompatível com buscar a paz; a diferença está no espírito com que se fala, na humildade, no respeito e na disposição de ouvir.

 

A Bíblia também fala sobre a relação com autoridades de forma mais ampla. Em Romanos 13.1–7, Paulo ensina que “toda autoridade” foi instituída por Deus em algum sentido, e que o governante é “ministro de Deus” para punir o mal e promover o bem. Por isso, os crentes são chamados a sujeitar-se às autoridades, pagar impostos, honrar e respeitar. Da mesma forma, em 1 Pedro 2.13–17, Pedro exorta os cristãos a se sujeitarem às instituições humanas “por causa do Senhor”, honrando o rei e as autoridades. Esses textos mostram que o cristão, por princípio, valoriza a ordem, a legalidade e a estabilidade social.

 

No entanto, a mesma Bíblia estabelece um limite claro. Quando as autoridades exigiram que os apóstolos parassem de pregar o evangelho, Pedro e os demais responderam: “Importa obedecer antes a Deus do que aos homens” (Atos 5.29). Isso significa que a obediência ao governo é relativa, enquanto a obediência a Deus é absoluta. Se uma autoridade ordenar algo diretamente contrário à vontade clara de Deus, o discípulo deve permanecer fiel ao Senhor, mesmo que isso traga perseguição ou sofrimento.

 

Em tempos de eleições, isso se traduz assim: depois da votação, mesmo que o candidato de um cristão não seja eleito, o chamado bíblico é respeitar as autoridades constituídas, orar por elas e cumprir as leis justas. Ao mesmo tempo, não há proibição de crítica responsável, de participação cidadã, de denúncia de injustiças. O cristão não é servil, mas também não é anarquista; ele busca honrar a Deus na forma como se relaciona com o Estado.

 

Um tema que a Bíblia repete de Gênesis a Apocalipse é a preocupação de Deus com justiça social e com os mais fracos. Em Miqueias 6.8, lemos: “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: que se pratique a justiça, se ame a misericórdia e se ande humildemente com o seu Deus.” Aqui, a vontade de Deus é condensada em três atitudes: praticar justiça (agir de forma correta, especialmente no trato com os mais vulneráveis), amar a misericórdia (ter um coração compassivo, sensível ao sofrimento) e andar humildemente com Deus (reconhecendo nossa dependência e limitação).

 

Provérbios 31.8–9 traz o conselho de uma mãe a um rei: “Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados.” O governante, segundo o coração de Deus, não existe apenas para si mesmo, nem para sua base de apoio, mas para defender aqueles que têm menos voz e menos recursos. Ele deve ser alguém que se posiciona em favor dos desamparados, dos pobres e dos necessitados.

 

Para o cristão que se prepara para votar, isso significa que sua preocupação não deve ser apenas: “O que é melhor para mim?”, mas também: “O que é melhor para os que têm menos poder, menos recurso, menos voz?” A Bíblia não impõe um modelo econômico ou um partido específico, mas exige sensibilidade e compromisso com a justiça. Qualquer projeto que despreza o pobre, normaliza a injustiça ou trata pessoas vulneráveis com desprezo se afasta do caráter de Deus revelado na Escritura.

 

Por fim, a Bíblia chama os crentes a orarem, e não apenas a reclamarem. Voltando a 1 Timóteo 2.1–2, percebemos que Deus quer uma igreja que intercede pelos governantes, pelos que exercem autoridade e pela nação. Muitas vezes gastamos tempo demais murmurando sobre a situação do país e muito pouco dobrando os joelhos por ele. Na perspectiva bíblica, a oração não é perda de tempo, é participação ativa naquilo que Deus está fazendo na história.

 

Em um período de pré-eleição, é apropriado que o cristão separe tempo para orar por direção em sua escolha, para pedir que Deus levante governantes mais justos, para que Ele revele e contenha a corrupção, e para que o ambiente do país seja favorável à paz, à dignidade e à livre proclamação do evangelho. É também um tempo para pedir que a igreja não se deixe dividir por linhas partidárias, mas permaneça unida em torno de Cristo, lembrando sempre que nenhum governante humano é senhor da igreja; apenas Jesus é.

 

Assim, a Bíblia não nos entrega uma “cartilha eleitoral” com nomes ou siglas, mas oferece princípios sólidos: buscar governantes justos, valorizar caráter e justiça, recusar a idolatria de líderes, agir com discernimento, preservar o amor e a unidade, respeitar as autoridades sem vender a consciência, cuidar dos mais fracos e recorrer a Deus em oração. À medida que esses princípios são levados a sério, o cristão consegue caminhar nesse período não como alguém perdido em meio a paixões humanas, mas como discípulo de Jesus, guiado pela Palavra em cada decisão.

Wilson Teixeira - IEQ IND 

 

 

 

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